Lembra daquela época, não muito distante, em que falar de carro chinês era quase sinônimo de piada? O termo “Xing-Ling” pegou e, por um bom tempo, a desconfiança era a regra. Pois é, o jogo não só virou, como parece que estamos no meio de uma verdadeira revolução. O que vemos hoje, com modelos da BYD e GWM ganhando as ruas, é o resultado de um plano ousado que começou do outro lado do mundo há quase 20 anos. E essa história revela muito sobre o futuro do nosso mercado automotivo.

Tudo começou quando o governo chinês teve uma sacada genial: competir com as marcas ocidentais tradicionais no campo dos carros a combustão seria uma batalha perdida. A solução? Apostar todas as fichas em uma tecnologia que ainda engatinhava, a dos veículos elétricos. Na época, só a Tesla parecia levar isso realmente a sério.
Com um forte estímulo de subsídios e outras vantagens, mais de 100 fábricas de automóveis surgiram na China. O resultado foi uma capacidade de produção gigantesca, muito maior do que o mercado local conseguia absorver. Isso gerou uma guerra de preços interna tão intensa que o governo precisou intervir. Nos últimos dois anos, o preço médio dos carros por lá despencou quase 20%, com alguns modelos chegando a ter descontos de 35%.

Para as fabricantes, a saída foi olhar para fora. E depois da Europa, o alvo se tornou a América Latina, com o Brasil no centro das atenções.
A chegada das marcas chinesas por aqui foi avassaladora. Nomes como BYD, GWM, Chery (pela CAOA), Changan e Geely não vieram para brincar. A prova disso é que, nos primeiros oito meses do ano, a BYD já alcançou o quinto lugar em vendas no Brasil, ficando atrás apenas de gigantes como Fiat, VW, GM e Toyota.
Segundo experientes executivos do setor, o que estamos vivendo não é uma simples evolução, mas uma revolução. As marcas chinesas trouxeram um pacote completo:
A mudança é tão profunda que inverteu a lógica do mercado. Se antes uma nova marca precisava correr atrás de concessionárias para vender seus carros, hoje são os donos de concessionárias de marcas tradicionais que batem na porta das chinesas para garantir um lugar ao sol. A dúvida de um empresário do setor hoje não é “se” deve vender uma marca chinesa, mas “qual” delas escolher.
Você pode estar se perguntando: “Mas e o famoso ‘Custo Brasil’? Ele não afeta os chineses?”. Sim, afeta, mas eles têm cartas na manga. A primeira é que a maioria dos componentes eletrônicos usados nos carros nacionais já vem da China, o que lhes dá uma enorme vantagem de custo.
Além disso, a estratégia de mercado deles foi muito inteligente. Em vez de entrar na briga de foice pelos carros populares ou pelas vendas para frotistas e locadoras, que têm margens de lucro mínimas, eles focaram nos modelos de maior valor, na faixa de R$ 200 mil a R$ 300 mil, onde a rentabilidade é alta.
É importante entender que esse fenômeno vai muito além dos carros. Um estudo recente do Itaú revelou que estamos vivendo um verdadeiro “tsunami” de importações chinesas em diversos setores, como têxtil, aço e plásticos. Isso acontece porque a China está exportando seu excesso de produção para o mundo todo, muitas vezes com preços bem agressivos.
No setor automotivo, os números são chocantes: enquanto as importações totais de veículos cresceram 35% no ano, as importações vindas apenas da China dispararam 800%. Para a indústria nacional, o cenário é preocupante. Setores produtivos alertam para um risco de perda de até R$ 500 bilhões em investimentos se essa “invasão” continuar no ritmo atual.
A situação criou um cabo de guerra. De um lado, a Anfavea, associação das montadoras tradicionais, vê seu pedaço do bolo diminuir e já investiga possíveis manobras para baixar artificialmente os preços dos importados. Do outro, a ABVE, Associação Brasileira do Veículo Elétrico, comemora o crescimento e o aumento de associados.
A questão é complexa. Adotar medidas protecionistas, como aumentar impostos, pode ser um tiro no pé, já que a China é nossa principal parceira comercial. Segundo economistas, a melhor saída para o Brasil não é se fechar, mas se tornar mais competitivo, com reformas que reduzam a burocracia e melhorem a infraestrutura.
Uma coisa é certa: a era do “Xing-Ling” acabou de vez. Os carros chineses chegaram para ficar e estão forçando todo o mercado a se reinventar. Diante desse cenário, há quem diga que a Anfavea representa o passado, e a ABVE, o futuro. E você, o que acha?
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