O cenário dos carros elétricos e híbridos no Brasil está prestes a mudar, e o seu bolso pode sentir a diferença. Um importante incentivo fiscal que beneficiava a chegada de novas marcas, especialmente as chinesas como BYD e GWM, chegou ao fim. Mas o que está por trás dessa decisão? Uma verdadeira briga de gigantes que pode respingar diretamente no consumidor. E, no final, vamos te contar um detalhe sobre esse benefício que quase ninguém percebeu.

Imagine comprar um carro como se fosse um daqueles kits de montar, só que em escala gigante. É mais ou menos assim que funcionam os regimes SKD (peças parcialmente desmontadas) e CKD (totalmente desmontadas). As montadoras importavam esses "kits" e montavam os veículos aqui no Brasil.
Para incentivar esse processo, o governo oferecia uma tributação bem mais amigável. Era uma estratégia perfeita para novas empresas, como a BYD e a GWM, que podiam começar a operar e a sentir o mercado brasileiro enquanto suas fábricas definitivas ainda estavam sendo construídas. Isso ajudou a trazer para cá carros super tecnológicos com preços que balançaram a concorrência.

Acontece que quem já estava no mercado há mais tempo não gostou muito dessa história. As montadoras tradicionais, representadas pela Anfavea, viram essa vantagem como uma concorrência desigual e foram conversar com o governo.
A pressão foi grande. Elas argumentaram que, enquanto pagavam uma carga tributária cheia, as novas concorrentes tinham um "desconto" para montar seus carros. O resultado? O governo decidiu encerrar o benefício que estava em vigor desde agosto e tinha previsão de durar seis meses.

Com o fim da isenção, a partir de fevereiro, as alíquotas para esses kits subiram para 16% e 18%, e a previsão é que cheguem a 35% até 2027, o mesmo imposto de um carro importado já pronto.
Essa é a pergunta de um milhão de reais, não é mesmo? Com o aumento nos custos de produção, as marcas chinesas ficam numa encruzilhada. Elas têm basicamente dois caminhos:

Qualquer uma dessas rotas tende a pressionar os custos para cima. E, como sabemos, essa conta muitas vezes acaba sendo repassada para o consumidor final. Portanto, não se assuste se os preços de alguns modelos elétricos e híbridos que conquistaram o mercado começarem a subir nos próximos meses.
Se você ainda tem na cabeça aquela imagem de que carro chinês é sinônimo de cópia e baixa qualidade, é hora de atualizar o software. A indústria automotiva chinesa evoluiu de forma impressionante nos últimos anos.

Eles deixaram de apenas imitar o design ocidental para desenvolver tecnologia própria de ponta, contratando os melhores profissionais do mundo. O resultado são carros com design arrojado, muita tecnologia, segurança e, principalmente, um foco imenso em eletrificação. Foi essa combinação de qualidade e preço competitivo que incomodou tanto as marcas tradicionais e deu início a essa "guerra de preços".
Pode parecer polêmico, mas essa história de governo ajudando montadora não é de hoje, nem exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, gigantes como GM e Ford já receberam apoio governamental em momentos de crise. Na Europa, governos de países como França e Alemanha têm participação em empresas como Renault e Volkswagen.

Por aqui, lá nos anos 50, o governo de Juscelino Kubitschek criou um programa inteiro para incentivar a produção de veículos e autopeças no país. Ou seja, o que vemos agora é apenas mais um capítulo na longa relação entre governos e a indústria automobilística.
Lembra daquela curiosidade que prometemos no início? Pois bem. Todo esse alvoroço foi causado por um benefício que, na prática, era bastante limitado. A isenção de impostos estava restrita a um teto de US$ 463 milhões em importações de kits.

Traduzindo para o mundo real: esse valor seria suficiente para montar pouco mais de 11 mil veículos elétricos. Um volume relativamente pequeno para o tamanho do nosso mercado. A briga, no fim das contas, foi mais pelo simbolismo e pela sinalização ao mercado do que pelo volume em si.
Agora, resta aguardar os próximos movimentos. Com o fim do benefício, a corrida para nacionalizar a produção vai se intensificar. E enquanto a GWM e a BYD não inauguram oficialmente suas linhas de montagem completas, o mercado fica de olho no que vai acontecer com os preços. A disputa está longe de acabar, e quem sabe, o maior beneficiado no final dessa história seja o próprio consumidor.
Como podemos melhorar ainda mais?
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