Hoje em dia, falar de carro elétrico no Brasil virou papo de bar, de almoço de domingo. Com o mercado aquecido e modelos como o BYD Dolphin Mini e o Renault Kwid E-Tech quebrando a barreira dos R$ 100 mil, a eletrificação parece mais próxima do que nunca. As vendas dispararam, e a cada esquina surge um novo modelo chinês prometendo revolucionar tudo de novo.

Mas, antes dessa febre toda, existiu um tempo em que ter um carro elétrico na garagem era coisa de visionário. Lembra deles? Aqueles primeiros modelos que chegaram de mansinho, custando uma fortuna e gerando mais curiosidade do que vendas. A grande pergunta que fica é: o que aconteceu com eles? E aquela história de que elétrico usado vale “meia Fipe”, é verdade? Fomos atrás dos números e, pode acreditar, a realidade é bem mais interessante que o mito.
Vamos voltar para 2014. O BMW i3 desembarcava como o primeiro carro elétrico do país, mas com um truque na manga.

A maioria das versões era, na verdade, um EREV (veículo elétrico com extensor de alcance). Em bom português, ele tinha um pequeno motor a gasolina que não movia o carro, mas funcionava como um gerador para recarregar as baterias e aumentar a autonomia. Uma solução inteligente para a época!
Naquele ano, ele chegou custando a partir de R$ 225.950. Uma pequena fortuna! Hoje, a Tabela Fipe para esse mesmo modelo pioneiro indica um valor de R$ 99.839. A versão 100% elétrica (BEV) só chegou em 2019, partindo de R$ 205.950, e hoje tem seu valor tabelado em cerca de R$ 136.106.

No mercado real, os preços dançam conforme a música. É possível encontrar unidades mais antigas por menos de R$ 120 mil, mas a média fica entre R$ 130 mil e R$ 160 mil. Ou seja, ele desvalorizou, como qualquer carro, mas está longe de valer “meia Fipe”.
Apresentado em 2018, o Renault Zoe chegou com a missão de ser um elétrico mais acessível. Seu preço de lançamento era de R$ 149.990, praticamente o mesmo que um BYD Dolphin custa hoje. Naquela época, com os preços dos carros em outro patamar, era um valor considerável.

O tempo passou e o simpático monovolume hoje tem seu valor na Tabela Fipe em torno de R$ 97.630. Em 2021, ele ganhou uma nova geração, mais potente e bem mais cara, partindo de R$ 204.990. Curiosamente, essa nova safra teve uma desvalorização curiosa: a versão topo de linha Intense vale hoje na Fipe R$ 115.074, enquanto a de entrada Zen, mais rara, está tabelada em R$ 141.099. Nos classificados, a maioria dos anúncios gira em torno de R$ 105 mil.
Apesar de ser o carro elétrico mais vendido do mundo por muito tempo, o Nissan Leaf só deu as caras no Brasil em 2019, já em sua segunda geração. Ele chegou com um preço de R$ 195.000. Hoje, a Fipe aponta um valor de R$ 99.571 para esse modelo.

Em 2022, recebeu uma atualização que o deixou ainda mais caro (R$ 293.790), mas que hoje já pode ser encontrado por R$ 154.642 na tabela. A história nos sites de venda é ainda mais convidativa: é relativamente fácil encontrar um Leaf, de qualquer ano, por menos de R$ 100 mil, especialmente se você não se importar com uma quilometragem um pouco mais alta.
Também em 2019, a JAC Motors decidiu apostar tudo na eletrificação, e o SUV IEV40 foi um dos protagonistas dessa virada. Lançado por R$ 153.500, ele prometia bons 350 km de autonomia. Hoje, seu preço na Fipe caiu para R$ 86.009. Devido às vendas modestas na época, encontrá-lo à venda em sites de classificados é uma tarefa para detetives.
O Chevrolet Bolt chegou em 2019 com um grande trunfo: uma autonomia de 416 km, que deixava os concorrentes para trás. Com 203 cv, era um carro ágil e espaçoso. Seu preço de estreia foi de R$ 175.000, e hoje a Fipe o avalia em R$ 132.601.
Em 2022, o modelo foi reestilizado e... ficou absurdamente mais caro, pulando para R$ 329.000! A queda foi igualmente impressionante. A Fipe para este modelo atualizado é de R$ 142.330, menos da metade do valor de lançamento.
Nos anúncios, as unidades mais antigas ficam próximas da Fipe, entre R$ 115 mil e R$ 130 mil, enquanto as mais novas costumam passar dos R$ 160 mil.
Para quem buscava luxo e desempenho, 2019 trouxe o Jaguar i-Pace. Com 400 cv, tração integral e um interior digno da marca, o SUV cupê chegou custando R$ 437.000. A desvalorização, como é comum em carros de luxo, foi forte. Hoje, a Fipe o coloca na casa dos R$ 234.726.
No mercado de usados, é difícil achá-lo por menos de R$ 200 mil, com a média de preços acompanhando a Fipe. Unidades mais novas e menos rodadas podem facilmente passar dos R$ 250 mil.
Depois de olhar para todos esses números, fica claro: a história de que carro elétrico vale “meia Fipe” é, na maior parte do tempo, um exagero. Sim, eles desvalorizam, alguns até de forma bem acentuada, como o Bolt reestilizado. Mas, no geral, seguem uma lógica parecida com a de carros a combustão, onde ano, versão, quilometragem e estado de conservação ditam o preço.
O que essa viagem no tempo nos mostra é que o mercado de elétricos usados está se tornando uma realidade. Aqueles carros que pareciam naves espaciais há poucos anos hoje são uma porta de entrada para a eletrificação, com preços que, em alguns casos, competem com modelos populares zero-quilômetro. E você, se aventuraria em um desses pioneiros elétricos?
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