Imagine a cena: uma montadora gigante, que aposta todas as fichas nos carros elétricos, de repente decide parar de produzir seu principal SUV elétrico em um dos maiores mercados do mundo. Foi exatamente isso que a Volkswagen fez com o ID.4 nos Estados Unidos. A fábrica de Chattanooga, no Tennessee, vai deixar o elétrico de lado para focar no grandalhão a combustão, o Atlas. Bate uma certa confusão, não é? Afinal, os elétricos não eram o futuro inevitável?

Pois é, a história é um pouco mais complexa e, acredite, muito mais interessante. Essa decisão nos EUA não significa um passo para trás, mas sim um desvio de rota estratégico. E para entender para onde a bússola da VW realmente aponta, precisamos olhar para o outro lado do planeta, onde uma verdadeira revolução está acontecendo em silêncio.
Vamos ser sinceros: a jornada do Volkswagen ID.4 nos EUA não foi um conto de fadas. Lançado como a grande aposta da marca na eletrificação americana, o SUV nunca conseguiu decolar de verdade. Em quatro anos, ele sequer beliscou um lugar no ranking dos 10 elétricos mais vendidos, um palco dominado por gigantes como Tesla e até por novatas como a Rivian.

A demanda por lá se mostrou, digamos, um pouco tímida. Em 2023, foram produzidas 37 mil unidades, mas em 2025 o número caiu para 22,3 mil. A Volkswagen percebeu que a aceitação não estava no ritmo esperado e tomou uma decisão pragmática: realocar seus recursos. Os cerca de 3.800 funcionários da linha do ID.4 não serão demitidos, mas sim movidos para a produção do SUV Atlas, um sucesso de vendas que ganhará uma nova geração.
E essa não é uma dor de cabeça exclusiva da VW. Outras marcas tradicionais também sentem a pressão. A Volvo, por exemplo, viu suas vendas de elétricos e híbridos caírem nas Américas, mostrando uma certa incerteza por parte dos consumidores. Parece que a transição para os elétricos por lá está sendo mais uma maratona do que uma corrida de 100 metros.

Agora, aperte os cintos, porque vamos viajar para a China, e lá o cenário é completamente diferente. Se nos EUA a VW tirou o pé do acelerador, na China ela está com o pé na tábua. A marca anunciou um plano ambicioso de lançar 30 novos veículos até 2027, sendo que 20 deles serão eletrificados!
No Salão de Xangai, a montadora alemã mostrou que não está para brincadeira e apresentou três conceitos elétricos que dão um gostinho do que vem por aí:

Essa ofensiva tem um lema claro: “Na China, para a China”. A Volkswagen entendeu que não pode mais simplesmente levar seus carros europeus para lá. O mercado chinês é o maior do mundo, responde por 40% das vendas globais da marca e é extremamente competitivo, com fabricantes locais como a BYD ditando o ritmo.
A resposta está nas pessoas e no mercado. O consumidor chinês é diferente. Ele é ultraconectado, valoriza tecnologia de ponta e quer inovação a todo momento. Por isso, os novos carros da VW por lá virão recheados de tecnologia, como:

Para conseguir lançar tantos carros tão rápido, a VW está investindo bilhões em centros de desenvolvimento locais, como o de Hefei, e fortalecendo parcerias com gigantes chinesas como SAIC e FAW. O objetivo é reduzir o tempo de criação de um carro para menos de 3 anos, um ritmo alucinante para a indústria.
No meio de tudo isso, você pode estar se perguntando: “Ok, mas e o Brasil?”. A boa notícia é que o ID.4 está nos planos para o nosso mercado, inicialmente por um sistema de assinatura. Mas a grande lição dessa história é outra.

A estratégia global da Volkswagen mostra que o caminho para o futuro elétrico não é uma linha reta. É uma estrada cheia de curvas, com velocidades diferentes para cada país. As dificuldades nos EUA e a aceleração na China são dois lados da mesma moeda: a adaptação.
Toda a tecnologia e a experiência que a VW está desenvolvendo a um ritmo frenético na China, como baterias mais eficientes e sistemas de inteligência artificial, inevitavelmente chegarão aos carros vendidos no resto do mundo, inclusive aqui. O que vemos hoje é uma gigante da indústria aprendendo a dançar conforme a música de cada mercado. E essa flexibilidade pode ser o verdadeiro motor que vai impulsionar a revolução elétrica para todos nós.
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